sexta-feira, janeiro 12, 2007

Parênteses

Dando uma pausa nessa história de ogrice... quero escrever hoje sobre um outro assunto. Cada vez mais, a violência do mundo, ou melhor, de nós, humanidade, tem me incomodado e entristecido. O noticiário, claro, é uma das principais razões pra ter reavivado essa minha percepção nos últimos tempos. É tanta barbaridade, pelos mais variados motivos ou por motivo nenhum. Nem preciso citar exemplos, cada um certamente pensará facilmente em vários.

Falamos muito sobre os diversos problemas mundiais, injustiça social, fome, falta de acesso à educação, à saúde, insegurança, violência... Mas a verdade é que precisamos mesmo é avançar como seres humanos. Vemos pessoas, sociedades, países lutando uns contra os outros, desrespeitando (em grandes e pequenas proporções) o outro, o meio ambiente. Me assusta mais é quando vejo pessoas que, em nome de uma causa nobre ou para fazer justiça porque o cara era mesmo um filho da puta, defendem que um ato de violência é justificável. Será que não é isso que sempre pensam os que fazem uma guerra?

Mas tive vontade de escrever sobre tudo isso porque ontem fui ao primeiro encontro de um grupo de estudo que uma amiga minha e um professor estão formando. A idéia é estudar a história das revoluções latino-americanas e a teoria marxista. Vimos um documentário muito interessante (A Batalha do Chile) e a idéia era depois debatermos. E então começamos a conversar sobre o assunto. Começou-se falando que pra resolver o Brasil só com uma revolução (até aí tudo bem, pra mim).

Mas quando vi as pessoas estavam falando que é preciso armar o povo (opa!). Se pudesse prever que ia causar um mal-estar ao dar minha opinião, tinha "pegado meu banquinho e saído de fininho". Mas, como não sou vidente, falei o que pensava e desagradei.

Desde então não páro de pensar no assunto e tenho cada vez mais certeza de que não acredito na violência, nem mesmo concordo com o argumento que surgiu de "violência reativa". É claro que se alguém me der um tapa (ainda mais me conhecendo como me conheço) não vou dar a outra face. Mas daí eu, racionalmente, buscar a solução pras mazelas humanas (ou pras minhas) através da violência, achar que isso poderia se justificar pelo resultado que se deseja... tem uma longa distância. Logo me informaram que, por essas coisas, sou humanista.

Depois de toda a discussão, ou debate, fiquei pensando que daqui a pouco viro um Raul Seixas, pregando a sociedade alternativa. No fim, já estava pensando que é o que resta mesmo pra mim... me isolar no meio do mato com meia dúzia de malucos como eu. Dizer pro mundo "pára!! que eu quero descer!"

Isso porque tudo o que consigo pensar é que a solução pra todos os problemas não está simplesmente em fazer justiça social, seja pela revolução ou não, e sim no amor. É, isso mesmo, uma solução bem piegas chamada amor. Ao invés de apenas universalização do ensino, saúde, comida, diversão e arte, deveríamos disseminar e garantir amor. Já pensou se o Bolsa Família não desse apenas dinheiro e exigisse aquelas condicionalidades (crianças na escola, vacinação, etc.), mas estimulasse o amor e o respeito ao próximo?

Acho que toda política, todo movimento social, a partir de agora, deveria ter entre seus objetivos principais o amor. "Plano Nacional da Educação Básica e Amor", "Plano Nacional de Saúde e Amor", "Programa Nacional de Geração de Emprego e Amor" e por aí vai.

Mas não é só ensinar as pessoas a amarem umas as outras não, mas a amar e respeitar toda a vida à nossa volta. Acho que o principal problema do mundo é que pensamos e agimos como se tudo ao nosso redor estivesse ali para nos servir. O que importa é o meu exclusivo bem-estar. E isso está em tudo, desde as pequenas coisas - como jogar um toco de cigarro pela janela pra não ficar com aquela coisa fedendo em casa, pouco importando se vou prejudicar o meio ambiente ou as pessoas que também convivem naquele espaço -, às grandes, como usar animais de cobaias.

Cresci com meus pais falando que se eu tivesse nascido na época da ditadura teria sido uma ativista, uma guerrilheira. Talvez a até alguns anos atrás isso seria verdade, mas hoje não sei como reagiria numa situação dessa. Certamente, não ficaria passiva, porque esta não é a minha natureza, sou combativa e idealista.

Mas voltando ao grupo de estudo, fiquei incomodada como tudo se sucedeu. Minha discordância ao uso da violência na revolução fez com que eu fosse taxada de humanista e, portanto, não-marxista. A verdade é que conheço muito pouco das duas teorias pra me definir por uma ou outra.

E se vc está pensando que a minha posição foi aceita tranqüilamente. Tenho a nítida impressão que não. (Vale esclarecer que só estavam eu, a minha amiga, o professor, um cientista político amigo da minha amiga que também discordava do uso da violência e uma mestranda em educação) Na hora de irmos embora, estávamos eu, minha amiga e o professor e ela falou pra ele que achava que o grupo ia parar por ali mesmo. Não recrimino ela, porque sei que também tenho tendência a ser radical e dificuldade de aceitar a opinião do outro.

Até mandei um email pra ela dizendo que esperava que o grupo não parasse por causa da primeira reunião, que sabia como ela estava animada e que talvez a questão fosse escolher melhor a audiência... A resposta, como veio no email: "Na verdade há diferenças ideológicas que podem emperrar a continuidade de algumas pessoas: não por imposição, mas por identidade mesmo (...) Há outras pessoas com as quais não conversei que se alinham mais com a ideologia marxista (termo reducionaista para simplificar)."

É, ainda não respondi o email, acho melhor conversar pessoalmente. Mas preciso colocar isso pra fora e vai ser aqui abertamente mesmo, no blog. Espero não ofender ninguém com o desabafo. Mas essa história tem outro lado que não o meu, devo ter sido mesmo uma chata inconveniente. Aí só resta pedir desculpa...

2 comentários:

Lara Haje disse...

Achei vc muito chique e nem um pouco ogra ao ingressar um grupo de estudo da história das revoluções latino-americanas e teoria marxista!

Cansei de ser ogra! disse...

é, mas acho que fui expulsa! hehehe a verdade é que, pelo menos até agora, o grupo não passou do fatídico primeiro encontro... Acho que joguei um balde de água fria. Mas ogra que é ogra não esconde sua opinião, né?